O leitor já deve ter reparado, nas sinaleiras e no fluxo de trânsito de Porto Alegre, o comportamento bizarro de alguns condutores, quando sozinhos em seus veículos. A quantidade de dedos no nariz (não raro um por
narina), espremendo cravos e performance de canto amador, com direito a caras e bocas, é surpreendente. Atitudes que, pelos mesmos condutores, seriam impensadas se estivessem caminhando na calçada, ao invés de estarem dirigindo. Todos teríamos vergonha de uma limpeza nasal em público, ou de cantar a plenos
pulmões; seríamos vencidos por nosso superego. Porque então, o comportamento de algumas pessoas se altera no veículo?
Como a poção que transformava Dr. Jeckyll em Mr. Hyde, no romance de Robert Stevenson, os automóveis liberam o lado “id”, mais primitivo, mais sensual, mais competitivo do ser humano. O número de cantadas libidinosas, xingamentos, provocações e atos anti-sociais é muito maior quando estamos ao volante do que quando estamos a pé.
A sensação de isolamento, transcendência e exercício do controle e poder que a carroceria do automóvel nos dá libera esse lado mais animal, como se fôssemos invisíveis aos demais, apesar de os veículos modernos terem cada vez mais áreas envidraçadas. Dentro de nossos carros podemos o que nos seria intimidado se fora
dessa armadura. O meio de transporte nos leva, na verdade, para um patamar acima das leis, normas, e repreensões próprias e de outrem.
Veja-se a quantidade de assaltos a casais de namorados que, dentro de um veículo, parece desligarem-se do mundo lá fora e entregarem-se ao desejo esquecendo assim dos perigos inerentes a uma metrópole.
As iniciativas de autores como o Prof.
Ático Dotta e o Dr. David Duarte Lima, RBS (Dirija Pela Vida), Governo do Estado (Movimento de Educação para o Trânsito), Fundação Thiago de Moraes Gonzaga (peça Exército de Sonhos), e ações empresariais como o Prêmio Volvo de Segurança no Trânsito têm de lutar contra esse transporte psicológico a uma situação de sublimação do meio que nos passa o automóvel.
Dentro do tripé engenharia viária, esforço legal e educação para o trânsito, é este último aspecto que terá a capacidade de diminuir os índices de acidentalidade e sinistralidade (perda de vidas humanas) nas vias
da Capital e demais cidades gaúchas. Mas podemos começar pelo bom exemplo individual de cada condutor, de manter as mãos no volante (e sem usá-lo como pandeiro ao embalo de uma música no veículo) e a mente
concentrada no que está à frente de seu párabrisa. Sobretudo quando há cidadãos passando em frente ao nosso pára-choques.
Referencia: Paulo Ricardo Meira
Mestre em Marketing e Técnico Superior em Trânsito
www.paulo.meira.nom.br